-Cultura, Património e não só-
Tudo isto a propósito de uma tarde de quarta-feira onde a Música, a Ciência, o Património e a Poesia deram as mãos para um espetáculo, no Instituto Politécnico de Viseu, como que a comemorar a chegada da Primavera.
Tive o prazer de ser um dos convidados para abordar um desses temas. Escolhi para tal o Património para o qual o mundo Árabo-Islâmico teve uma notável e decisiva contribuição em várias áreas sendo uma delas a Astronomia a qual por sua vez teve uma importância relevante no aperfeiçoamento dos Relógios de Sol.
É a introdução, de uma forma definitiva, do posicionamento do estilete dos relógios de sol orientado para a Estrela Polar, ou melhor, formando um ângulo com o plano horizontal igual ao valor da latitude do lugar que torna o relógio de sol num instrumento tecnicamente evoluído passando a indicar para qualquer ponto do planeta as chamadas horas iguais cujo valor (duração) para qualquer hora do dia é constante ao longo do ano. Esse posicionamento aparece num relógio de sol do século XIV construído por Ibn-al-Shatir enquanto muwaqqit da Mesquita de Damasco.
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É um relógio extremamente rico em informações sobre contagens do tempo pois nele aparecem Horas Babilónicas, Horas Itálicas, Horas Iniguais, indicações relativas às orações diárias da religião islâmica e finalmente as chamadas Horas Iguais. É também notável a forma escolhida para o estilete a qual permite a leitura das diferentes informações dadas por este belo relógio de sol.
Foi pois a introdução do valor da latitude do lugar no posicionamento do estilete que esteve na origem da expansão gnomónica nos séculos seguintes (de notar que outras formulações gnomónicas se desenvolveram a partir do século xv).
É de referir que, quase cinco séculos passados sobre o relógio de Ibn-al-Shatir, um outo gnomonista árabe Ahmed iibn Qâsim construiu para a Mesquita Sidi Oqba em Kairoan na Tunísia um relógio de sol com um aspeto muito interessante em especial no que se refere à forma e posicionamento dos gnomons e que eu designaria como um relógio de sol do tipo “Ibn-al-Shatir expandido“.
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Nota: As imagens que acompanham este texto são de maquetes simplificadas dos relógios de sol referidos e construídas por mim para estarem presentes numa pequena exposição de relógios árabes nessa quarta- feira à tarde.

Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista


No dia 21 de Março deste ano de 2018 e pelas 14 horas, numa iniciativa do Instituto Politécnico de Viseu terá lugar, na sua Aula Magna, uma tarde de caracter cultural com o seguinte programa:
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Entrada Livre

Um artigo de Paul Gagnaire dá-nos a conhecer um pouco da história de um relógio de sol de um tipo raro e de características muito especiais e que hoje se encontra no Museu do Louvre na galeria de Vivant Denon.
Trata-se de um relógio de sol de forma semi-esférica côncava talhado num bloco de mármore, com um pequeno orifício na sua parte superior que deixa passar um fino raio de sol, que projecta no seu interior obscuro (a semi-esfera é posicionada para tal) um pequeno círculo luminoso sobre linhas que definem a hora e a época do ano.
Estamos perante o chamado “Scaphé de Cartago”.
Cartago foi uma importante cidade fenícia quando este povo dominava o comércio mediterrânico. Com o crescente poderio romano, Cartago e o seu povo eram um poderoso obstáculo à expansão e hegemonia romana na área. As várias guerras que por tal tiveram origem (Guerras Púnicas) levaram à destruição completa de Cartago (fins do IIº século AC) e com a proibição por parte de Roma de qualquer reconstrução da cidade. Contudo já na nossa Era é erguida no mesmo local uma Cartago sob o nome de Colónia Romana Julia Augusto que também floresceu. É com o declínio e fim do Império Romano que esta região é palco de invasões e domínios por parte de Vândalos, Bizantinos e finalmente pelos Árabes que nos finais do século VII lhe produzem uma destruição total que leva ao desaparecimento permanente de Cartago.
São trabalhos arqueológicos do século XX na zona da antiga Cartago que levam à descoberta deste Relógio de Sol.
É certamente no período ainda romano que este “Scaphé” é utilizado em Cartago pois foi encontrado intacto numa “Villa” certamente de um alto funcionário local ou de um abastado comerciante romano.
Por estudos feitos sobre este relógio de sol tudo indica que será de origem romana e datado do Iº ou IIº século DC.
De referir os estudos técnicos sob o ponto de vista gnomónico feitos no presente por dois dos maiores especialistas nesta área, Denis Savoie e Roland Lehoucq.
As imagens que se seguem mostram bem a qualidade e a beleza deste relógio de sol do início da nossa Era.
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Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista


A construção dos impérios tem sempre duas faces, uma é a violência por vezes de uma crueldade inaudita, a outra muito menos visível, permite uma mistura de culturas ou pelo menos de se ter uma visão do que culturalmente separa os povos.
Isto vem a propósito da expansão do Império Romano que tendo absorvido inicialmente muito da cultura grega, vai encontrar nos povos do Próximo Oriente e do Norte de África fontes de informação cultural e científica que se irão espalhar de uma forma mais ou menos intensa pelos territórios do seu domínio que abrangem grande parte da actual Europa, do Próximo Oriente, Norte de África e Ilhas Mediterrânicas.

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É com o declínio e fim do Império Romano do Ocidente e a ascensão do poderio árabo-islâmico que a cultura greco-romana e não só, recebe novo impulso.
Todas as áreas da ciência foram tomadas pelos árabes como base de novos estudos não se coibindo estes de pôr em causa os postulados existentes.
As traduções de obras de pensadores e homens de ciência de várias origens, em especial gregas e hindus, a construção de centros de ciência (certamente os primeiros ERASMUS) onde a variedade de línguas e credos não impediam a procura comum de novas abordagens e soluções e ainda o apoio de altos governantes (quais primeiros mecenas) na criação desses centros levaram a que as matemáticas e a astronomia, em especial, fossem as pedras fundamentais da chamada Idade de Ouro do povo árabo-islâmico que podemos situar entre o fim do Império Romano e o fim da chamada Idade Média.
É precisamente o rigor que é imposto ao crente islamita nas regras ditadas pelo Corão para as suas orações diárias que se observa nas indicações existentes nos relógios de sol em especial os utilizados nas Mesquitas.
É pois num relógio de sol romano, designado por Horologium de Augusto que a ciência gnomónica do povo árabe produz evoluções técnicas sobre o uso, construção e leitura, que leva ao que podemos chamar de “explosão gnomónica” que se vai iniciar na Europa no fim da Idade Média. É de notar que também pelo início da Idade Média, foi introduzido na Europa Católica por uma congregação religiosa, um horário de orações diárias assinaladas em “relógios de sol” verticais designados por Relógios de Sol Canoniais mas cuja construção não obedecendo a nenhuma regra gnomónica não se podem considerar verdadeiros relógios de sol.

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O designado Horológio de Augusto que foi construído entre o 10º e o 9º ano AC e era constituído (segundo algumas opiniões) por uma laje de grandes dimensões e tendo como gnómon um obelisco egípcio originário da cidade de Heliopólis, do tempo do faraó Psamétrico II da XXVI dinastia (594-589) AC o qual foi trazido para Roma por ordem do Imperador Augusto. Outras fontes falam não num relógio de sol horizontal mas sim numa meridiana calendário.

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Hoje esse obelisco continua na cidade de Roma mas na Praça de Montecitório para onde foi mudado por indicação do Papa Pio VI no ano de 1792


Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista


Ao percorrermos a Bíblia encontramos no chamado Livro dos Reis um episódio com Ezequias que passo a transcrever na íntegra. “Naquele tempo, Ezequias adoeceu com uma enfermidade mortal, e o profeta Isaías, filho de Amós, veio ter com ele e disse-lhe: Isto diz o Senhor; Põe em ordem a tua casa, porque vais morrer, não viverás”. Então Ezequias voltou o rosto para a parede e orou ao Senhor dizendo: “Senhor, lembrai-Vos que andei fielmente diante de Vós, e com simplicidade de coração fiz o que é reto aos Vossos olhos”. E Ezequias derramava copiosas lágrimas.
Isaías saíra, mas antes de chegar ao átrio central a palavra do Senhor foi-lhe dirigida nestes termos:
“Volta e diz a Ezequias, chefe do Meu povo: Isto diz o Senhor, Deus de David, teu pai: Ouvi a tua oração e vi as tuas lágrimas. Por isso vou curar-te. Dentro de três dias, subirás ao templo do Senhor.
Vou acrescentar quinze anos aos dias da tua vida; além disso, salvar-te-ei a ti e a esta cidade das mãos do rei da Assíria e protegerei esta cidade por amor de Mim e de David, Meu servo”.
E Isaías disse: Trazei-me uma massa de figos. Trouxeram-lha, ele aplicou-a sobre a úlcera e o rei sarou. Ezequias disse a Isaías: “Qual será o sinal de que o Senhor me curará e de que poderei subir ao templo, dentro de três dias?”
Isaías respondeu-lhe: “Eis o sinal que o Senhor te dará para saberes que se cumprirá a Sua promessa: Queres que a sombra se adiante dez graus?” “É fácil, replicou Ezequias, que a sombra se adiante dez graus. Não. Quero que recue dez graus”. Então o profeta Isaías invocou o Senhor, que fez a sombra recuar dez graus no relógio de sol de Acaz.
Este episódio foi, tudo o indica, analisado pela primeira vez por um cientista português do século XVI de nome Pedro Nunes. Pedro Nunes (1502/1578) natural de Alcácer do Sal estudou em Salamanca e na Universidade de Lisboa tendo-se depois transferido para a Universidade de Coimbra onde foi professor.
Pulicou trabalhos sobre vários temas entre eles estudos sobre navegação abordando a Loxodromia também designada por Linha de Rumo mas é mais conhecido pela invenção do “Nónio” que colhe a designação no seu nome em latim de Petrus Nonius . Entre esses estudos está, sem contudo apresentar cálculos, o problema da retrogradação da sombra sobre o relógio de sol de Acaz.
Este estudo de Pedro Nunes levou, Etienne Guillemin um engenheiro de Lausanne, a contactar Camille Flammarion, por volta de 1880, com a indicação de que teria, como se verificou, descoberto o motivo desse fenómeno.
Na verdade, juntamente com Camille Flammarion e durante o solstício de Verão verificaram que sob certas condições a sombra de um gnómon, durante um período relativamente curto, apresenta o que se chama de uma retrogradação sendo contudo mais uma inversão do seu movimento horário.
Este fenómeno de visualização não imediata e que não é observável em todos os pontos do planeta Terra situa-se num período temporal curto e à volta do solstício de Verão.
Terão pois os sábios da corte de Ezequias criado essas condições para que tal fenómeno tivesse lugar.
Uma coisa é certa: O movimento aparente do sol não foi invertido no tempo de Ezequias, nem no tempo de Flammarion e nem no tempo atual mesmo que, com as condições técnicas que sejam criadas, se observe por algum tempo uma inversão no movimento angular da sombra do gnómon.


Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista



Um tipo de relógios de sol não muito habitual mas que permite muitas variantes é o relógio de sol em superfície cilíndrica. A orientação do eixo da superfície pode ser horizontal, vertical ou oblíqua, assim como o relógio de sol pode ser desenhado na superfície cilíndrica côncava ou na convexa. Se ainda acrescentarmos a possibilidade do relógio de sol ser construído com ou sem gnómon e ainda neste caso ser de gnómon simples ou múltiplo, encontramos um número de possibilidades deveras elevado.
Vários gnomonistas têm-se dedicado à construção destas variantes dando origem a relógios de sol estranhos mas esteticamente bastante interessantes.
A origem de relógios de sol cilíndricos remonta ao Iº século tendo-se descoberto na cidade italiana de Este um exemplar que será o antepassado do Relógio de Sol de Pastor muito em uso pelos pastores dos Pirenéus (daí o seu nome) até ao século passado. Os relógios de sol cilíndricos podem ser do tipo portátil ou não
Desde o século XVI até aos nossos dias os relógios de sol cilíndricos têm ornamentado em especial jardins, praças e pracetas mesmo que a informação que possam fornecer não possua um leque razoável em número de horas e em alguns casos é mesmo necessário actuar sobre o próprio relógio para se obter a informação horária. Alguns de construção complexa são mais exercícios de gnomónica do que propriamente “medidores de tempo” cuja precisão deixa muito a desejar.
Podemos pois encontrar em vários países relógios deste tipo dos quais vamos mostrar alguns exemplos.
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Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista


É no extraordinário período renascentista, com o desenvolvimento das ciências em especial da Matemática e da Astronomia, que o relógio de sol sofre um impulso para competir e até apoiar a expansão dos relógios mecânicos tanto públicos como privados.
Apesar da grande evolução dos relógios mecânicos estes ainda eram irregulares no seu funcionamento pelo que, a fim de se uniformizar a sua regulação, se recorreu a um tipo de relógio de sol de características muito próprias, as chamadas “Meridianas”. Mas também nesta mesma época a Astronomia estava a sofrer um grande impulso por parte de estudiosos deste tema os quais recorreram a “Meridianas “ para efectuar as suas medições e os seus estudos.
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Este tipo de relógios de sol funciona exclusivamente numa faixa muito apertada à volta do chamado Meio-Dia Solar. Existem contudo três tipos, a meridiana vertical de exterior, a meridiana horizontal também de exterior (menos usual) e a horizontal Astronómica ou de Câmara Escura.
A meridiana vertical teve uma grande difusão pois permitia a quem possuísse relógios mecânicos acertá-los correctamente ao Meio-Dia, já a meridiana horizontal de Câmara Escura era utilizada nas observações solares e no estudo dos movimentos da Terra. Estas últimas eram instaladas em Observatórios Astronómicos ou mais habitualmente em Catedrais e Igrejas pois os seus interiores pouco iluminados eram os locais ideais para a sua implantação. De notar que estas últimas necessitavam de grandes espaços para que as leituras sobre elas feitas fossem de grande precisão.
A vulgarização das “meridianas” inicia-se no século XVI e estende-se pelos séculos XVII, XVIII e XIX.
Às chamadas “meridianas verticais” foi em meados do século XVIII acrescentada uma curva em forma de um 8 alongado habitualmente conhecida por “analema” que permite indicar o chamado Meio-Dia Solar Médio e que simultaneamente serve de calendário.
Várias meridianas horizontais de Câmara Escura foram construídas na Europa e não só. Entre os inúmeros exemplos existentes referimos a da Igreja de Santa-Sofia em Constantinopla que será provavelmente de 1437, a da Catedral de Santa Maria del Fiore em Florença construída por volta de 1467, a da Basílica de São Petrónio em Bolonha construída por volta de 1580 e muitas mais haveria a referir.
Uma pequena nota para ilustrar as dimensões destas Meridianas de Câmara Escura: O óculo da meridiana por onde penetra o sol na Catedral de Santa Maria del Fiore situa-se numa cúpula desta a mais de 90 metros de altura e tem um diâmetro na ordem dos 50 mm.
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Mas acertar um relógio mecânico com algum rigor ao meio-dia solar local era possível com outro tipo de relógio de sol. Um relógio do qual já falámos que é o Relógio de Sol de Canhão, criado em meados do século XVIII, que no momento da passagem do sol pelo meridiano do lugar usando a sua lente como concentrador de calor, acendia a mecha de um pequeno canhão carregado com pólvora que disparava o chamado “tiro de pólvora seca” que indicava o meio-dia solar local
Foi entre os séculos XVI e XIX que o Relógio de Sol atingiu o seu expoente máximo só ultrapassado no presente pelo engenho de excelentes gnomonistas, arquitectos e matemáticos que nestes tempos da electrónica deram outra vida e outro “sabor” aos Relógios de Sol
O Engenho Humano é inesgotável

Nota: Sobre o tema foram consultados textos da net

Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista


É no Período Renascentista, pelos séculos XV e XVI que na Europa a “Gnomónica” fica ligada a uma expressão técnica e artística que deu origem aos chamados “Blocos Gnomónicos” contudo o seu apogeu parece situar-se no século XVII.
Superfícies esféricas, cónicas, cilíndricas, helicoidais concavas e ou convexas completadas por superfícies planas com várias orientações encontram-se reunidas em conjuntos gnomónicos com impacto visual assinalável. A cada uma destas realizações parecia haver necessidade que outra mais complexa se criasse.
Tudo indica que esta tendência se terá iniciado na Europa Central tendo-se posteriormente estendido às chamadas Ilhas Britânicas e não só.
São em especial os Mosteiros que asseguram esta expansão pois são os locais onde a matemática e a astronomia têm mais adeptos.
São imagens de alguns destes blocos gnomónicos que até nós chegaram que aqui se mostram.
A Gnomónica não deixa nunca de nos surpreender.

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Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista


O Japão, onde os portugueses chegaram por volta do segundo quartel do século XVI, é ainda hoje um país complexo e algo misterioso.
Foi através de um artigo de Bernard Cura publicado na revista “Astronomie” da Sociedade Astronómica de França que tomei conhecimento de um relógio de sol japonês do século XVII. Mas foi também esse artigo que me despertou o interesse em conhecer, nem que fosse de uma forma um pouco superficial, algo sobre esse período da História do Japão.
O curioso é que por alturas dos fins de 2016, nas salas de cinema se encontra em exibição o filme “Silencio” de Martin Scorsese, que de um certo modo mostra um dos factos marcantes dessa época no Japão que na altura era governado por uma ditadura feudal.
Essa ditadura é um Xogunato que deu origem ao chamado “Período Edo” (Edo, actual Tóquio, era a capital deste Xogunato) que se estendeu de 1600 a 1868. Esta ditadura fechou o Japão ao mundo durante mais de 250 anos.
Vão ser os Estados Unidos da América que pelo ano de 1853 forçam o Japão a abrir-se novamente ao mundo.
Mas voltando ao relógio de sol japonês direi que há em parte deste meu texto uma tradução muito livre do artigo atrás referido.
Matsuo Munefusa, de pseudónimo BASHO, poeta japonês do século XVII decidiu em certa altura retirar-se da vida mundana para se tornar monge. É durante este último período que cria um relógio de sol (HIDOKEI) portátil de “altura”, de “mostrador” horizontal e construído em papel o que o torna extremamente leve e transportável.
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Uma das curiosidades deste relógio é indicar Horas japonesas as quais constam de um sistema horário civil que data do século VII e que é tipicamente japonês.
É um sistema de horas temporárias que divide o período diurno e o período noturno em seis partes cada, sendo estas indicadas por toques de sino e da forma como se segue, por períodos que agora corresponderiam a ser aproximadamente de duas em duas horas.
Assim: Meia-noite 9 badaladas e depois sucessivamente 8, 7, 6, 5, 4, para de novo se fazerem ouvir 9 badaladas correspondentes ao meio-dia e a continuar novamente de forma decrescente. De notar que as 6 badaladas deveriam corresponder ao início da aurora e também ao início do crepúsculo.
Estamos pois perante um relógio de sol interessantíssimo e que nos diz ser cada vez mais surpreendente o mundo deste património que por muitos é ignorado.

Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista


No “mundo” dos Relógios de Sol a complexidade das formas foi e será sempre um desafio artístico e técnico para um bom número de gnomonistas.
Isto vem a propósito dos Relógios de Sol múltiplos poliédricos, regulares ou não. Hexaedros, octaedros, dodecaedros e não só, têm desafiado a capacidade técnica dos construtores destes Medidores do Tempo, que não sendo muito vulgares, encontramos na Europa e não só belos exemplares destes tanto do tipo portátil como de dimensões significativas sendo estes últimos colocados em praças e jardins.
Poder-se-á pensar que são construções modernas mas a verdade é que a sua existência conta já com alguns milénios. Basta recordar que este tipo de relógios existia, não no seu aspecto poliédrico mas no seu aspecto múltiplo no Antigo Egipto.
É certamente a partir do século XVI que os Relógios de Sol poliédricos veem a luz do dia e cuja construção não esmoreceu até aos dias de hoje.
Algumas imagens de Relógios de Sol Poliédricos de beleza e técnica indiscutíveis.
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Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista


Fortuna, Poder Político ou Extravagância também estiveram na origem de alguns tipos de Relógios de Sol em especial nos séculos XV e XVI. Não se pode contudo deixar de afirmar que foi a perícia e os grandes conhecimentos de gnomónica dos criadores e artesãos da época que permitiram a sua existência. Refiro-me aos Relógios de Sol “tipo Cálice”, os quais podemos dividir em duas classes, os que usavam um gnómon vertical colocado no eixo do respectivo cálice (que não permitindo a bebida poderíamos designar de “Cálice Seco”) e aqueles cujo gnómon se situava no bordo do cálice e que portanto permitiam o uso de uma bebida do tipo água ou vinho branco. Estes últimos requeriam uma construção mais sofisticada das linhas horárias pois os problemas ligados à refracção da luz tinham que ser tomados em conta. Notar que os valores da refracção da luz na água e no vinho branco são diferentes.
Numa reunião ou banquete de gente ilustre ou endinheirada, o promotor do evento beber água ou vinho branco por um cálice deste tipo, certamente iria provocar admiração e por que não uma certa inveja entre os seus convidados.
O Relógio Cálice mais antigo que se conhece e que chegou aos nossos dias é de 1554 e foi construído em Aldersbach uma aldeia perto de Passau (Baviera) e o seu autor é um clérigo de nome Bartholomeu de “Aldersbach”.
Dois dos raros relógios de sol do tipo “Calice” que até nós chegaram
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Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista


Entre as honrosas excepções que há certamente neste país não posso deixar passar um caso que verdadeiramente me surpreendeu.
Há alguns anos o Grupo Visabeira adquiriu um palacete do século XVIII pertença de uma família descendente de um Governador e Capitão General de uma região do Brasil concretamente da região de Cuibá e Mato Grosso.
Mandou esse Governador construir, na Região da Beira Alta, na povoação de Castendo, hoje Penalva do Castelo, uma residência segundo planos por ele definidos.
O Grupo Visabeira que aí criou um Hotel de Charme (Hotel Casa da Ínsua) procedeu a um restauro exemplar do edifício, dos seus envolventes e do seu precioso recheio. Nada do original foi destruído, deitado fora ou considerado de 1ª, 2ª ou 3ª classe.
Tudo isto vem a propósito do conjunto de Relógios de Sol existentes na Casa da Ínsua que além de variados se encontram num bom estado de conservação.
Há, contudo, um pormenor que me levou a escrever este artigo. Num pátio avarandado sobre os belos jardins da casa, além de um bonito relógio de sol Vertical Sul apoiado numa pedra saliente da parede afim de conseguir uma orientação correta, existe no chão desse pátio um bloco cilíndrico de granito com uma pedra calcária circular onde é notória a passagem do tempo.
Porque terá ficado ali aquele bloco com uma pedra rachada e com marcas de furações?
Aquela “velharia” não foi retirada e permitiu que uma cuidada e leve limpeza revelasse linhas horárias de um relógio de sol assim como o posicionamento das furações leva, julgo eu, a poder-se afirmar que se está em presença do que resta de um Relógio de Sol de Canhão que com o seu disparo de “Pólvora Seca” indicava o Meio-Dia Solar.
Este relógio de sol será provavelmente do período da construção da Casa da Ínsua pois foi por essa época (1785) que este tipo de relógio de sol foi criado e tudo indica ter sido invenção de um engenheiro francês de nome Rousseau.
Os estragos na pedra base resultam da corrosão dos componentes metálicos deste tipo de relógios.
Os meus parabéns ao Grupo Visabeira e um agradecimento especial á sua Administração pelas facilidades que me foram dadas para o estudo dos Relógios de Sol da Casa da Ínsua e pela Visita Guiada que me foi proporcionada e me fez percorrer os séculos XVIII, XIX e XX pelos caminhos desta Família de Beirões que nos legou um excelente património.+
As imagens que se seguem são dos Relógios de Sol da Casa da Ínsua, Hotel de Charme em Terras de Castendo.
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Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista


É a capacidade inventiva do Homem que o leva a conceber instrumentos para a determinação das horas no período nocturno. O conhecimento dos movimentos aparentes dos astros e a regularidade de alguns deles fazem-no criar o NOCTURLÁBIO ou Relógio das Estrelas.
Não é conhecido o seu inventor, sendo o mais provável que ele resulte de aperfeiçoamentos sucessivos de um primitivo medidor de movimentos das estrelas em que um deles aparece num manuscrito do século XII, a ser utilizado por um monge. É contudo no período compreendido entre os séculos XV e XVIII que o nocturlábio tem uma grande divulgação, em especial pelos navegadores. Um marinheiro experiente poderia, mesmo tendo em conta os movimentos do barco causados pela ondulação, fazer leituras horárias com erros entre 10 a 20 minutos. O aperfeiçoamento do nocturlábio levou a que alguns deles permitissem calcular latitudes e até o momento da maré alta nos portos.
No Hemisfério Norte o referencial do nocturlábio é a Estrela Polar pois o seu movimento circular aparente é muito pouco significativo comparado com o das estrelas circumpolares que irão servir para a determinação da hora em função do seu deslocamento angular (no século XV o desvio da Polar ao alinhamento do eixo da Terra era de aproximadamente de 3,5o e neste momento é de mais ou menos 0,8o).
É contudo, nos finais do século XIII que Raimundo Lúlio descreve a chamada Roda Polar que é já o pronúncio do Nocturlábio e que permitia saber a hora nocturna quando Kochab (estrela da Ursa Menor) fazia tangência num ponto numerado do círculo exterior. As horas eram indicadas em numeração romana.
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Em Portugal rodas como esta também aparecem tais como a Roda do Rei Dom Duarte no 2º quartel do século XV.
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Também a Roda do Homem do Polo em finais do século XV e cuja leitura era feita segundo as “Regras do Regimento de Évora” ou ainda a Roda de João de Lisboa do século XVI.
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É a partir do século XVI que aparece o chamado Nocturlábio de Ponteiro, mais preciso e com mais possibilidades de utilização pois permitia usar outras estrelas circumpolares para determinar a hora.
O Nocturlábio perde importância por volta do século XVIII com a divulgação cada vez maior do relógio mecânico.
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Como curiosidade transcrevo as “Regras do Regimento de Évora”
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Nota: Foram consultados artigos na net tais como: Portal do Astrónomo e ancruzeiros

Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista


O Astrolábio é um instrumento científico de uma longevidade assinalável que vem desde a Antiguidade até ao início dos Tempos Modernos. O Astrolábio é no fundo uma Esfera Armilar projetada num plano o que torna possível ter “na mão” os movimentos aparentes dos astros que vemos na esfera celeste.
O Astrolábio terá aparecido no Egipto (Alexandria) no século IV e serão os astrónomos árabes que a partir do século VIII terão introduzido os melhoramentos que tornaram o Astrolábio um equipamento de excelência.
É a partir do século X que o Ocidente toma contacto com o Astrolábio e com os conhecimentos científicos dos povos árabes em especial através de Espanha onde estes tinham território pois foi sob o comando de um general árabe de nome Tärique que os árabes vindos do Norte de África se fixaram na Península após vencerem Rodrigo (rei visigodo) na batalha de Guadalete tendo a sua permanência na Península abarcado um período de quase oitocentos anos.
Um dos aspetos que terá levado os astrónomos árabes ao aperfeiçoamento do astrolábio terá sido a necessidade de determinar exatamente não só a direção de Meca mas também a exata hora das orações a praticar segundo a Religião Muçulmana.
Como foi dito o Astrolábio resulta da projeção da esfera armilar sobre um plano. A projeção mais vulgarmente usada é a projeção estereográfica sobre um plano situado paralelamente ao equador. Há variantes nas projeções utilizadas, nos planos de projeção e nos pontos de vista, dando origem a modelos diferentes do clássico astrolábio designadamente aos astrolábios de Rojas, de La Hire e ao designado por Astrolábio Católico entre outros.
Pouco conhecido, mas de uma conceção extraordinária, é o Astrolábio Linear de al-Tusi, astrónomo árabe nascido em 1156 na região de Khorassan no Irão junto à fronteira do Afeganistão.
O astrolábio clássico é constituído por um conjunto de peças que além da sua funcionalidade revelam um cuidado técnico e artístico de elevada qualidade.
De entre os vários tipos de astrolábios há a considerar o Astrolábio Náutico Português muito usado na navegação durante os séculos XV e XVI. Usado unicamente para a determinação da altura dos astros era uma peça pesada e com o máximo de área aberta o que permitia uma redução significativa ás oscilações produzidas nos barcos devidas à ondulação assim como um menor efeito da ação do vento sobre o astrolábio.
Algumas imagens de astrolábios ilustram a qualidade e beleza destes instrumentos científicos com séculos de utilização e em que a inovação esteve sempre presente.
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Nota: Consultadas obras de Jean-Noël Tardy, de Yaël Nazé e textos sobre o tema na internet.

Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista


Não resisto de “transcrever” de uma forma muito livre um artigo que encontrei na revista “Le Gnomoniste” da autoria de Roger T. Bailey, canadiano de Canmore (Alberta). Roger Bailey secretário da NASS fez uma comunicação sob o tema a Esfera Armilar, durante um encontro em Montereal.
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Sobe o provável título “O que é uma Esfera Armilar e por que é que ela é o símbolo de Portugal”, Roger Bailey dá-nos uma verdadeira lição sobre um período da História de Portugal, um país com mais de 900 anos.
Em Portugal as esferas armilares estão por todo o lado, nas rotundas, nas moedas, nos fontanários, nos jardins, nos campanários das igrejas, nos frontões dos mosteiros, nas escolas, sobre o mastro das bandeiras, assim como (caso único) na Bandeira Nacional.
A Esfera Armilar que se julga criação do grego Eratóstenes foi usada como instrumento de grande importância na Astronomia, na navegação e foi usada para várias funções na Escola de Navegação do Infante D. Henrique “O Navegador” e ainda por Tycho Brahe, Nicolau Copérnico, Kepler e muitos outros ao longo dos tempos.
Mas como podemos definir a Esfera Armilar? Fundamentalmente é a representação cosmológica do Universo como no passado era imaginado, tendo a Terra como centro e as estrelas, fixas numa esfera que envolvendo o Mundo Terreste rodava em torno deste.
Mas essa esfera exterior à Terra impedia que esta fosse visível e portanto não permitia qualquer utilização prática do modelo. É então a sua simplificação que torna o modelo útil.
Essa simplificação traduz-se pela utilização de anéis interligados que representam os principais e necessários círculos da Esfera Celeste utilizados na Astronomia para a localização dos corpos celestes ao longo do ano.
Veremos mais tarde o contributo dos povos Árabes na evolução da Esfera Armilar.
Mas voltemos a Portugal. Como referido é o único país que tem representada na sua Bandeira Nacional a esfera armilar representação do Universo e símbolo das grandes descobertas geográficas feitas por navegadores portugueses. Uma nação de navegadores instigados pelo Infante Dom Henrique filho de Dom João I de Portugal.
Os descobrimentos portugueses valeram a criação a Portugal de um enorme Império pela expansão marítima dos séculos XV e XVI. Nomes ilustres como Bartolomeu Dias o primeiro navegador a dobrar o Cabo da Boa Esperança, Vasco da Gama na origem da Rota da Índia, Pedro Álvares Cabral na descoberta do Brasil, Fernão de Magalhães que ao serviço de Castela foi o primeiro navegador a dar a Volta ao Mundo (Circum-navegação).
São também navegadores portugueses que estão ligados à descoberta de territórios e países: Açores, Madeira, Canárias, Cabo Verde, Congo, Angola, Moçambique e na criação de “Feitorias” em Ormuz, Goa, Calecute, Ceilão, Malaca, Macau,….
É o período em que os portugueses controlam as rotas das especiarias.
É o rei Dom Manuel I que adota a Esfera Armilar como símbolo real e portanto de Portugal e é a partir de então que a Esfera Armilar se introduz na arquitetura portuguesa que conjuntamente com motivos marítimos originam o chamado Estilo Manuelino dos muitos monumentos construídos em Portugal.
A pressão de potências europeias e os custos exorbitantes das colónias estão na origem da perda por Portugal da supremacia nos mares e na dificuldade de manter sob a sua bandeira os vastos territórios do Império.
A colocação (em meados do século passado) em Lisboa na zona de Belém de um monumento às descobertas é uma homenagem a todos os que de uma forma ou de outra tornaram os séculos XV e XVI os séculos de ouro de Portugal. A esta homenagem associou-se a África do Sul pois foi um navegador português que pela primeira vez navegou nesses mares e dobrou esse Cabo que de Cabo das Tormentas se passou a designar por Cabo da Boa Esperança.
O monumento aos navegadores portugueses é da autoria do arquiteto Cottinelli Telmo e do escultor Leopoldo de Almeida
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Nota: Para este artigo foi consultado um texto de Roger Bailey assim como informações sobre o Monumento dos Descobrimentos, obtidas na net

Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista


De entre os Relógios de Sol de Altura sobressaem os do tipo portátil muito em voga sobretudo a partir do século XV e até ao século XIX.
O número de variantes deste tipo de relógio é significativo e de entre eles podemos referir o Relógio de Sol de Pastor, os do tipo Anel, os de Aro, ou ainda os de Pulseira assim como outros, mais de efeito decorativo do que propriamente de utilização prática, tais como Brincos ou então para uso em colares como Dragão sobre coluna ou até com a forma de uma Cruz.
Não podemos contudo referir como origem deste tipo de Relógio de Sol o fim da Idade Média início do Renascimento pois já no século I era utilizado um modelo idêntico ao Relógio de Sol de Pastor de que um exemplar foi descoberto em Itália na cidade de Este perto de Pádua.
Também já no século XII seria utilizado o “Aro Solar” pois segundo uma lenda, uma Nobre Dama, Leonor de Aquitânia perdeu-se de amores por Henrique Plantagenêta a quem ofereceu um Relógio de Sol do tipo “Aro Solar” para ele estar a horas nos seus encontros amorosos. Ainda segundo essa lenda Henrique Plantagenêta ficou tão emocionado com esta prova de amor que encomendou ao seu “ourives” um anel (do tipo do “Aro Solar”) para a sua Leonor e nele fez gravar “Carpe Diem” (disfruta o dia). O que se sabe é que dois meses depois de Leonor de Aquitânia se ter divorciado (anulado o casamento) com o seu marido Luís VII de França, casou com Henrique Plantagenêta. Este casal nobre foi coroado Rei e Rainha de Inglaterra em Dezembro de 1154.
Mas dos relógios portáteis de altura o mais conhecido é sem dúvida o cilíndrico de Pastor assim designado por ter sido muito usado e até há pouco tempo, pelos pastores dos Pirenéus pois durante as transumâncias o seu afastamento dos povoados era grande e o uso de um Relógio de Sol era importante para organizar o seu dia de trabalho.
Estes relógios de altura têm uma precisão relativa que pode variar entre 15 a 20 minutos mas a sua utilização mais crítica é entre as 11 e as 13 horas pois neste período do dia a variação da altura do sol em relação ao horizonte é muito diminuta o que torna a leitura das horas com erros muito superiores a 30 minutos.
Algumas imagens de Relógios de Sol de Altura (portáteis)

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Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista

Nota: Para este artigo foram consultadas obras de Michel Lalos e textos da Wikipédia


No início do século XIII os árabes reintroduzem no Relógio de Sol o Gnomon orientado paralelamente ao eixo da Terra (divulgado na Europa bem mais tarde) e simultaneamente, por esta data é criado um mecanismo que está na origem da regulação do relógio mecânico (roda de escape, eixo com palhetas e travessa oscilante também conhecida por Foliot).
O relógio mecânico irá iniciar a sua utilização pelos grandes centros urbanos, o que não impede do relógio de Horas Canónicas de ser utilizado até meados do século XV enquanto o aperfeiçoamento do relógio mecânico prossegue.
A estrutura pesada e volumosa dos relógios mecânicos de então faz com que o relógio de sol do tipo portátil tenha o seu período áureo entre os séculos XV e o século XIX.
É pela mão de Astrónomos, Matemáticos Geómetras e Gnomonistas, cuja simultaneidade de atividade era usual nessas épocas, que o Relógio de Sol Portátil conhece um extraordinário desenvolvimento e expansão.
A utilização da variação da altura do Sol durante o dia e ao longo do ano era já usada na Antiguidade para determinar a hora. É esta característica que foi desenvolvida na Idade Média dando origem a interessantes e engenhosos Relógios de Sol Portáteis alguns para utilização local outros para utilização alargada (várias latitudes) designados estes por Universais.
Um dos Universais mais conhecidos é o Relógio de Sol Rectilíneo de Regiomontanus, descrito e possivelmente criado ou aperfeiçoado por um alemão de nome Johann Müller, Geómetra e Astrónomo mais conhecido pelo nome de Regiomontanus.
Pela concepção científica e artística não posso deixar de mencionar do século XIV a Navicula de Venetiis, no século XV o Universal de Regiomontanus, no século XVI o Capucin e também o Universal d´Apian. A todos estes relógios do tipo plano outros se lhes vão juntar como os cilíndricos ou os de anel de que em breve falaremos.
Quem sabe se não foi o Analema de Ptolomeu o percursor de todos eles?

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Deixo-os com algumas imagens desses Relógios Rectilíneos de Altura

Nota: Para este como para outros artigos são consultadas obras de Denis Savois, Yvon Massé, Yves Opizzo, Yaël Nazé, Gerhard Dohrn-van Rossum e textos sobre o tema na Wikipédia

Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista


Se o Relógio de Sol Canonial domina a regulação do tempo durante um milénio já o uso de relógios de sol deste tipo por outros povos, como os Egípcios ou os Chineses, leva a pensar que a sua utilização pode ter durado muito mais tempo.
A disseminação do Cristianismo pela Europa Ocidental, em especial a partir do final do século IV, como religião oficial do Império Romano é um facto indesmentível. Esta expansão do Cristianismo não é interrompida pelo fim do Império Romano do Ocidente como resultado da chamada Invasão dos Bárbaros mas pelo contrário parece que a mesma acelerou essa expansão. O aumento do número de Igrejas e de Mosteiros é notório.
É nos mosteiros que encontramos clérigos e estudiosos num tipo de vida austera, dedicada à oração, ao trabalho manual e ao estudo das ciências e das artes dessas épocas.
Para tal o dia monástico é dividido em períodos bem expressos e com tarefas bem definidas na respectiva “Regra Monástica”.
É também por volta do século V e século VI que aparecem sinos em campanários e cujo toque indica a hora desta ou daquela oração ou deste ou daquele ofício religioso na Igreja ou Mosteiro das redondezas.
A vida da sociedade começava então a ser organizada em função destes sons de chamada da população às orações diárias.
O relógio canonial é caracterizado por um círculo dividido em oito sectores dos quais na maior parte só quatro são representados e que correspondem ao período diurno. Em alguns casos estes quatro sectores diurnos aparecem com divisões suplementares.
Mas voltando à divisão de base vejamos como eram designados e a que correspondiam:
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É de ter em conta uma certa irregularidade destes espaços de tempo pois os períodos diurno e noturno são, nas várias latitudes, de duração variável.
A partir do século XI até ao século XIV as horas canoniais foram-se deslocando (devido à organização da vida social) pouco a pouco para o período da manhã de tal modo que a Nona Hora passou a indicar o Meio-Dia.
É por meados do século XII que aparecem na Europa os primeiros relógios mecânicos que contudo não impedem o desenvolvimento do Relógio de Sol.
Muitas dessas horas da Idade Média perduraram até aos nossos dias e inspiraram grandes artistas. Vejamos o belo quadro de Jean-François Millet de 1858. Fim de tarde e um sino longínquo chama à oração. É o Angelus.
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Também na tradição popular algo ficou dessas horas canoniais. Quem não se lembra da expressão: “fulano chegou a casa às tantas da matina”.
Horas canoniais, outras horas, outros tempos.

Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista


Se a expansão da antiga Grécia deu origem a um aumento do número e tipos de Relógios de Sol portáteis é no período romano e perante o aumento territorial do Império que o número e variedade dos Relógios de Sol portáteis é significativo.
Se o relógio de sol fixo do tipo Hemicyclium é predominante nas cidades romanas, onde a oferta destes indicadores do tempo era muitas vezes feita por cidadãos com fortuna e que além do acto mecenático era uma prova do prestígio do doador, já o uso do relógio de sol portátil era uma necessidade que o intenso comércio da época, existente por todo o Império, promovia.
Formas bizarras ou inventivas foram encontradas nas várias regiões do Império desde a Península Ibérica, à Península Itálica, à região da Gália e à zona Balcânica. Nessa variedade foram encontrados relógios de sol em vários estados de conservação mas sobre os quais foi possível fazer reconstituições que nos permitem ver que o conhecimento da Gnomónica era nesse tempo um facto indesmentível pois existiam relógios portáteis para uso local e portanto feitos para uma determinada latitude até outros dirigidos para serem usados por viajantes do Império em cuja construção era tido em conta as diferenças de latitude entre os vários territórios imperiais.
Mais do que um texto explicativo de alguns desses tipos de relógios, aqui deixo algumas imagens que falam por si e que são a prova do conhecimento científico e de execução técnica dos “Relojoeiros” dessas épocas.
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Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista

Nota: As fontes usadas para este artigo são as referidas em artigos anteriores


A introdução do relógio de sol na Grécia Antiga é um assunto que certamente ficará para sempre por resolver contudo tudo indica que os gregos terão adquirido os conhecimentos básicos da sua construção e da sua utilização, ou pelo menos do seu antecessor “o gnómon” dos sábios da Babilónia.
É contudo a Grécia, podemos dizer, a responsável pela evolução e difusão deste medidor do Tempo por toda a Bacia Mediterrânica e do Mar Negro assim como pelos povos que hoje habitam a Palestina, a Síria, o Iraque e o Afeganistão.
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A “Gnomónica”(ciência do cálculo e construção dos Relógios de Sol) terá tido o seu início no século VI fins do século VII A.C..
Os primeiros passos terão sido na determinação dos Solstícios, dos Equinócios para a balizagem das Estações do Ano, a determinação da Latitude de um lugar assim como da Obliquidade da Eclítica usando para tal um Gnómon estabelecendo relações entre a altura deste e a sua sombra de comprimento mínimo.
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É certamente o “Polos”, concavidade semiesférica com um gnómon vertical e cujo extremo se encontra no cento desta, o primeiro relógio de sol grego que irá ter várias evoluções como refere Vitrúvio na sua obra De Architectura. A disseminação destas variantes do “Polos” pelo mundo Greco-Romano é inquestionável. As trocas comerciais e os movimentos militares expansionistas que originam grandes deslocações humanas terão estado na criação e desenvolvimento dos relógios de sol portáteis (abordaremos em breve este tema).
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Não posso deixar de referir um facto que me parece extraordinário e que atesta o desenvolvimento da Gnomónica nesses tempos bem recuados da civilização. Foi num artigo de Louis Janin que tomei conhecimento de uma descoberta arqueológica realizada por uma equipa de arqueólogos liderada por Paul Bernard.
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Nas ruínas da cidade de origem grega Aï-Khanoum situada nos confins do que é hoje o Afeganistão e que certamente resultou das campanhas militares de Alexandre “O Grande” e edificada provavelmente em 329 A.C. e destruída por volta do ano 150 A.C., foi encontrado um relógio de sol do tipo equatorial com um estilete polar o que é surpreendente numa época em que os estiletes (gnomons) ou eram verticais ou horizontais e que assim se mantiveram até ao século XIV quando o relógio de sol de estilete polar foi pelos árabes introduzido na Europa. (Quantas maravilhas tecnológicas não se terão perdido na voragem do Tempo )
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(Réplica do r.s. de Aï-Khanoum)

Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista
Nota: As fontes são idênticas às utilizadas nos anteriores artigos


Tabelas de sombra, relógios de fogo, ampulhetas ou relógios de areia, candeias a óleo e velas foram durante séculos instrumentos para marcar períodos de tempo tanto na parte noturna como na diurna. Todos eles coexistiram com o relógio mecânico, introduzido no início do século XIII. Alguns desses instrumentos engenhosamente deram origem aos primeiros despertadores. Não sendo consensual as origens e as datas do seu aparecimento é no entanto certo que alguns deles chegaram aos nossos dias. Refiro-me por exemplo ao caso das ampulhetas que ainda não há muito tempo (60-70 anos) regulavam em certos Estabelecimentos de Ensino o tempo que um aluno tinha para o seu exame oral. Ai como demorava tanto aquela areia a passar de um lado para o outro.
Mas um dos mais interessantes sistemas para se saber a hora do dia era o das Tabelas de Sombra. Partindo de um princípio empírico de que a relação entre o tamanho do pé de um homem e a sua altura se situa entre 1/6 e 1/7 foram criadas tabelas para os diferentes meses do ano em que se relacionava a hora com o comprimento da sombra da pessoa em causa. Essas tabelas apareceram no Egipto por volta de 2000 A.C., na Grécia no século IV A.C. assim como em Roma nos finais do século IV da nossa Era. Encontramos estas últimas em escritos de Palladius Rutilius Taurus Aemilianos na sua De Re rustica.
Os chamados relógios de fogo terão tido a sua origem há milhares de anos na China. Eram constituídos por um suporte-depósito onde ardia de uma forma muito regular uma barra de incenso cuja cinza era recolhida no depósito. Era sobre essa barra de incenso que se colocavam um ou vários fios de seda que tinham nas extremidades bolas de ferro.
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Quando o fogo da barra de incenso atingia um desses fios a sua queima desprendia as esferas que caiam ruidosamente sobre uma superfície metálica. Terão então surgido os primeiros “despertadores”. A ampulheta ou relógio de areia terá sido inventada por um monge no século VIII, mas referências objectivas datam do século XIV.
Em geral as ampulhetas indicam períodos de tempo relativamente curtos mas existiam ampulhetas de 24 horas. A sua construção era delicada e o tipo de areia ou as suas várias misturas determinavam a sua qualidade. Foram utilizadas para vários fins tendo na Marinha o seu uso mais frequente. Aqui as mais usadas eram as de meia hora. O virar da ampulheta antes do fim de uma passagem total da areia para um dos lados era conhecida pelos marinheiros por “comer a areia”. O desgaste, pela areia, do orifício de passagem desta é um, entre outros, dos motivos da alteração das suas características iniciais, pelo que com o decorrer do uso o seu tempo padrão ia-se alterando.
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Até ao século XVIII estiveram também em uso as lamparinas calibradas cuja fiabilidade dependia do tipo e qualidade do óleo combustível utilizado assim como das técnicas da sua construção. Os derrames e os vapores por elas produzidos requeriam cuidados especiais na sua utilização.
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Por último falemos das velas. As velas graduadas para medir períodos de tempo (horas ou suas fracções) terão sido inventadas à volta do ano de 870. Consistia numa vela graduada que no fundo media a velocidade da queima que podia ir de 4 h a 12 horas. A sua precisão dependia da sua espessura, da regularidade da forma, da temperatura ambiente e do tipo de combustível usado. As velas menos dispendiosas eram fabricadas á base de sebo de boi ou de ovelha em oposição às fabricadas com cera de abelha substancialmente mais caras. A sua vulgarização a preços bem reduzidos dá-se nos finais do século XVIII com a descoberta do ácido esteárico que passou a ser a matéria prima das “velas de estearina”.Também as velas deram origem a sistemas de despertar talvez inspirados nos relógios despertadores de incenso.
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Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista

Nota: Para os artigos publicados e a publicar foram consultadas obras de Denis Savoie, Yves Opizzo, René Rohr, Michel Lalos e textos sobre os temas na Wikipédia



Como já foi referido a origem e a data do aparecimento das clepsidras também conhecidas como relógios de água certamente ficará para sempre pelas especulações.
Não podemos deixar de dizer que as clepsidras tiveram o mérito de promover um grande avanço na organização temporal da sociedade e a sua utilização estendeu-se até nós ou por motivos de ordem prática ou por motivos de ordem técnico-científicos. Foi a sua utilização nos períodos noturnos e em dias de sol encoberto ligada a uma regulação mais fina dos períodos de tempo que determinaram a sua utilização ao longo dos séculos até aos nossos dias.
A clepsidra foi sofrendo evoluções introduzidas por Egípcios, Gregos, Romanos, Chineses, Árabes e construtores de outras origens. Algumas delas eram de construção simples enquanto outras de tamanho monumental.
Os Romanos usavam pequenas clepsidras para regular o tempo atribuído aos Tribunos nas assembleias políticas assim como nos tribunais aos Advogados.
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É na chamada Torre dos Ventos, construída numa grande praça (designada por Ágora Romana) na cidade de Atenas que funcionava uma clepsidra. É curioso que conjuntamente com ela, nessa torre feita em mármore, de secção octogonal com 12 metros de altura e com um diâmetro de aproximadamente 8 metros estavam relógios de sol nas suas faces laterais.
É contudo no mundo Islâmico Medieval que a clepsidra tem um grande desenvolvimento. É pela mão de um engenheiro Persa de nome Al-Jazari que a clepsidra atinge o seu apogeu.
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À pergunta se hoje existem clepsidras modernas, a resposta é sim. Em Parques Temáticos de alguns países podemos ver clepsidras que são reproduções mais ou menos melhoradas de clepsidras antigas. É o caso da” Clepsidra de Tambor” existente no parque de Ludiver (Tonneville-França) assim como a clepsidra (com controlo de entrada de água) que é o impressionante “Relógio de Água” de Bernard Gitton.
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Mas outros processos foram usados desde a antiguidade para medir o tempo tais como as ampulhetas ou relógios de areia, os relógios de fogo, as tabelas de sombra, as velas ou ainda as candeias a óleo.
Todos estes artefactos contadores do tempo ou de partes de tempo teriam a precisão possível mas no entanto a suficiente para a vida muito menos acelerada desses remotos tempos.

Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista

Nota: Para os artigos publicados e a publicar foram consultadas obras de Denis Savoie, Yves Opizzo, René Rohr e textos sobre os temas na Wikipédia.



A clepsidra ou relógio de água é um medidor do tempo que se baseia no tempo que demora uma certa quantidade de água a entrar ou a sair de um recipiente, graduado ou não, de uma forma contínua e regular.
A clepsidra foi usada pelos povos da antiguidade e não só, tendo-se ao longo de séculos nela introduzido vários artefactos que a levaram a uma contagem do tempo de uma forma muito regular. Nela introduziram mecanismos de informação múltipla que ainda hoje surpreende pelo engenho e técnica dos seus criadores.
Encontramos clepsidras no Egipto, Mesopotâmia, India, Pérsia, China, no mundo greco-romano, no mundo islâmico medieval e na Europa. As clepsidras com os relógios de sol e relógios mecânicos até aos nossos dias.
Com toda a incerteza que pode existir nas datações de factos ou instrumentos da antiguidade, há quem afirme que na China há indícios da sua existência 4.000 A.C., na Índia por volta de 2.800 A.C., na Babilónia em 2.000 A.C., no Egipto pelos anos 1.400 A.C. e na Pérsia em 500 A.C. eram já usadas clepsidras para regular a distribuição da água pelos agricultores cuja gestão era atribuída a alguém de reconhecida idoneidade e justeza. Esta água era obtida nos chamados “qanats” (impressionantes obras de Engenharia Hidraúlica)
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O local onde esse gestor e clepsidra se situava era conhecido como “khanal fenjaan”. Como curiosidade um desses relógios de água ainda estava em uso no ano de 1965 da nossa era, portanto há 50 anos.
A simplicidade dessas clepsidras é notável. Quem media o tempo por esse sistema colocava num grande vaso com água uma taça com um minúsculo orifício no fundo e aguardava que essa taça afundasse, nesse momento colocava uma nova taça na água para afundar e seguidamente colocava num prato uma pedra referente à taça afundada. O número de pedras indicava o tempo consumido na operação.
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Outros povos que usaram clepsidras fizeram nelas inovações notáveis não só nas informações cada vez em maior número que davam mas em especial na componente hidráulica pois temas como a viscosidade da água em função da temperatura, a variação da pressão com a altura da água num vaso e a evaporação eram fatores levados em conta pelos construtores de clepsidras.
Ás clepsidras de afundamento podemos opor as clepsidras de escoamento como são exemplo as primeiras clepsidras egípcias.
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Veremos que a variedade deste equipamento de medição do tempo é na verdade impressionante.

Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista


As prospeções arqueológicas têm desvendado cada vez mais a vida do Homem na Antiguidade. Foram esses trabalhos minuciosos da arqueologia que levaram á descoberta dos relógios de sol mais antigos até hoje encontrados. O Egipto terá sido a região onde estes medidores do tempo mais cedo apareceram com o seu aspecto mais prático.
Todos os povos criaram divisões do tempo e com elas criaram blocos que lhes permitia referenciar os acontecimentos da vida. Os egípcios antigos definiram o ano como um conjunto de 365 dias dividido em 3 estações compostas por 4 meses, cada um com 30 dias e para que tudo desse certo eram adicionados no final do ano 5 dias suplementares (dias epagoménicos). Não é de admirar a existência destas 3 estações do ano pois os egípcios sendo dependentes do rio Nilo regulavam-se pelo tempo das Cheias, Sementeiras e Colheitas. Foram também os egípcios que dividiram o período diurno em 12 parte ( com início ao nascer do sol) e também em 12 o período noturno (com início ao por do sol). Atendendo que ao longo do ano a duração do tempo diurno e do tempo noturno não são iguais, tem isso como consequência que cada uma dessas partes tem duração variável. Se a cada uma delas chamarmos “horas” teremos aquilo que designamos por Horas iniguais.
Para os antigos egípcios a parte diurna do dia foi dividida em seis períodos da manhã e seis períodos da tarde.
Tudo indica que no antigo Egipto os relógios de sol do tipo portátil eram comuns e vários modelos apareceram ao longo de séculos. Os primeiros indícios apareceram descritos num cenotáfio (túmulo de homenagem mas vazio) de Séti I (1290 a 1279 A.C.) na cidade de Abydos. Esse relógio possuía quatro marcas que indicavam os períodos da manhã assim como os períodos da tarde. Nessa descrição são referidos outros dois períodos logo a seguir ao nascer do sol e outros dois antes do pôr- do- sol períodos esses que não eram representados no referido relógio de sol.
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Contudo o mais antigo relógio de sol encontrado, também portátil, datado do reinado de Tutmósis III (+/- 1450 A.C.) possui cinco marcas e não quatro.
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Um outro relógio encontrado recentemente (em 2013) tem um aspecto bem diferente, foi achado no que terá sido a casa de um operário dos Templos Egípcios e que confirma a diversidade dos relógios de sol do Egipto Antigo.
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Mas voltando aos relógios de sol do género do de Tutmósis III um outro mais recente datado por volta de 900 A.C. e conhecido por relógio de Saïs já possui seis marcas das quais sabemos como eram designadas.
Iª hora – a que se eleva
IIª hora – a que guia
IIIª hora – a protetora de Sua Majestade
IVª hora – a secreta
Vª hora – a flamejante
VIª hora – a elevada (a mais alta)
Outros relógios de épocas mais recentes foram achados como o relógio de El Qantara de 320 A.C.
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Talvez sem surpresa foi também no Egipto que um outro relógio, também portátil e do tipo vertical foi descoberto. Este relógio é datado nos anos à volta de 1210 A.C. no reinado de Mérenptah.
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Um interessante relógio portátil, neste caso múltiplo, também de origem egípcia atesta o espírito inventivo deste povo das margens do rio Nilo. A base superior é do tipo de r.s.de Tutmósis havendo mais dois laterais, um do tipo escada e outro do tipo rampa.
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Mas as obras que os povos dos grandes rios nos deixaram indicam um grau elevado de conhecimentos na área da hidráulica pelo que não admira que tenham usado a água como elemento medidor do tempo. Foi usando o escoamento controlado deste líquido que construíram os chamados Relógios de Água ou Clepsidras. Falaremos deles em breve.

Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista

Nota: Para os artigos publicados e a publicar foram consultadas obras de Denis Savoie, Yves Opizzo, René Rohr e textos sobre os temas na Wikipédia


Certamente a origem do Relógio de Sol nunca será determinada mas isso não impedirá que a mesma não se procure pois os achados arqueológicos cada vez mais nos fazem recuar no tempo permitindo conhecer a evolução do Homem desde a sua, provável, origem em África, à sua migração pelo Planeta, à sua organização social cada vez mais complexa e à criação de artefactos para uso no seu dia a dia.
Há aproximadamente 5000 anos, na Mesopotâmia, no Egipto, no que é hoje o Paquistão e na China apareceram os primeiros grandes aglomerados urbanos que teriam entre 10 000 e 40 000 habitantes. Na verdade há um elemento comum entre estas zonas, todas elas estão ligadas a um ou mais rios importantes e todos eles foram berços de grandes civilizações.
Quando o Homem se tornou sedentário nasceu o agricultor e o criador de gado dentro de pequenas comunidades provavelmente com uma organização do tipo familiar ou de um pequeno grupo de famílias.
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Com a instalação do Homem junto a grandes rios, Tigre e Eufrates na Mesopotâmia, Nilo no Egipto, Indu no Paquistão e Rio Amarelo na China a agricultura e a pastorícia deixou de ser de subsistência para se tornar de produção excedentária e portanto comerciável o que levou ao desenvolvimento desses aglomerados. O subsequente aumento populacional criou as condições para o surgimento de actividades diferenciadas e o aparecimento de uma nova estrutura social.
Tudo indica que essa nova estrutura social se desenvolveu em pirâmide que partindo da base seria mais ou menos como isto: escravos, agricultores e artesãos, comerciantes, funcionários, chefes militares e no topo o rei que o seria de um território a que poderíamos chamar “Cidade Estado”.
No início da sedentarização com uma agricultura e pastorícia incipiente talvez o Homem só necessitasse de conhecer o início dos grandes períodos anuais a que hoje chamamos Estações do Ano. O acumular de conhecimentos empíricos, ao longo de milénios, das variações do dia solar levou-o a construir estruturas de grandes dimensões para identificar os Equinócios e os Solstícios. São exemplos disso na Europa, entre outros, Stonehenge e o Círculo de Goseck.
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É contudo nas já designadas Cidades Estado que o comércio, os ofícios e as atividades administrativas obrigam a uma divisão do dia em fracções que permitam uma regular organização das atividades.
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A evolução destes grandes centros (como p. ex. Uruk na Babilónia há 3500 anos A.C. ) não terá sido idêntica e também certamente desfasada no tempo. Mas a Astronomia, a Escrita e a Matemática terão aí surgido pela imperativa pressão do desenvolvimento.
Ao falarmos de Astronomia falamos de fenómenos cíclicos que permitiram a esses povos organizar-se temporalmente. Estamos então perante a repartição das atividades durante o dia e isso terá levado a utilizar o sol como um regulador através do que chamamos de Relógio de Sol. É de referir que outros instrumentos foram criados para que essa divisão se estendesse ao período noturno ou a dias enevoados.
É sobre esses equipamentos que iremos falar futuramente e em particular no Relógio de Sol cuja evolução é surpreendente mesmo nos nossos dias.

Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista

Nota: Para os artigos publicados e a publicar foram consultadas obras de Denis Savoie, Yves Opizzo, René Rohr e textos sobre os temas na Wikipédia


Sob este título iremos abordar a história do Relógio de Sol e a evolução deste ao longo dos tempos, um pouco de Cosmografia, a importância do relógio de sol nos nossos dias e os relógios de sol em Portugal.
Pegando no título deste ciclo de artigos creio não estar muito enganado (seria bom que o estivesse) ao considerar que os relógios de sol em Portugal são um património considerado menor pela maior parte dos responsáveis pelas políticas da cultura e do património.
Este não interesse pelos relógios de sol estende-se á população em geral e em especial à faixa etária abaixo dos 65 / 70 anos já que estes últimos, quando jovens, estavam ainda inseridos numa sociedade predominantemente rural e portanto ou tinham o relógio da igreja ou a sombra de uma esquina nas “escaleiras” da casa da “ Ti Zulmira” que lhes indicava que era altura de ir “virar a água” ou outro dos afazeres de uma vida rural. Alguns familiares mais idosos desses jovens usavam habitualmente um relógio de sol portátil, muito divulgado no final do século XIX início do século XX, construído em madeira e possuindo uma bússola para orientação e da autoria de um Gnomonista de nome João da Silva.
Os relógios de sol são peças com uma enorme história, alguns de rara beleza e são objetos possuidores de uma grande informação científica características que merecem ser divulgadas. São instrumentos que ajudaram o Homem a organizar-se em sociedade.
Em Portugal algumas autarquias e entidades têm promovido a divulgação dos relógios de sol existentes na sua região e não só. Estou-me a lembrar de um belo livro editado pelos CTTs e da autoria de Nuno Crato, Suzana Metello de Nápoles e de Fernando Correia de Oliveira, assim como edições apoiadas por Câmaras Municipais como é o caso da C.M. de Valpaços que editou um trabalho sobre relógios de sol do concelho, da autoria do Dr. Adérito Freitas. Sobre este tema, o mesmo fez a C.M. de Torres Vedras com a edição do livro Medição do Tempo em Torres Vedras, da autoria de José Mota Tavares, José António Madruga e Carlos Guardado da Silva sobre relógios mecânicos e de sol existentes no seu concelho. Também a Fundação Caixa Agrícola de Leiria apoiou a publicação de um livro de José Mota Tavares sobre relógios mecânicos mas contem alguns relógios de sol.
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Certamente outros exemplos haverá mas que são somente alguns “Oásis” num imenso deserto de informação sobre este património.
Este e futuros artigos tentarão chamar a atenção para este património que não podemos dar-nos ao luxo de esquecer.
Termino com uma frase que escrevi num catálogo de uma exposição de relógios de sol realizada no ano 2002 na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Viseu.

“Hoje, por muitos ignorados, mas ainda vistos por uns tantos como peças científicas e artísticas, os Relógios de Sol são um património que qualquer povo deve preservar e dar a conhecer, pois eles acompanharam o Homem durante séculos e são uma prova viva da sua evolução, da sua curiosidade natural e do seu espírito científico”

Pedro Gomes de Almeida
Astrónomo Amador e Gnomonista